domingo, 27 de junho de 2010

Depois da festa

Suspeito que ele não me ligará hoje.

Festa, álcool, heavy metal. E nenhuma atração. Obviamente que da parte dele.

Acho que ele só queria curtir, balançar o cabelo e beber. E, talvez, beijar uma garota mais bonita que eu.

Não me leve a mal. A minha auto-estima não está baixa, é que... não sei. Ele é bonito demais, até um padrão de beleza; eu, uma garota comum.

Talvez ele seja um cara idealista, que não liga para padrões estéticos, que não se importa com a limitação da maioria dos seres humanos de criar paradigmas e se fechar neles. Talvez seja um intelectual, que se atraia mais pela inteligência. Quem sabe?

E até que foi um papo-cabeça: música, quadrinhos, filosofia, ocultismo... E foi esse o problema (estou um pouco confusa, por favor, tenha paciência). Papo intelectual demais e, você sabe, nenhuma demonstração de interesse pessoal.

O máximo disso, perguntas triviais: “Qual o seu nome?”, “Tem quantos anos?”. E o elogio: “Jaqueta legal!”.

Mas a minha jaqueta jeans velha e desbotada hard rock café cheia de patches de bandas não é uma extensão de mim.

Eu fazia charminho, apesar de ser péssima nisso, mas ele não percebia, ou fingia...

Ele pode ser tímido também, pode não ser. Às vezes eu fazia uma piadinha ou outra e ele ria, mas seria terrível se ele me visse apenas como a “gordinha simpática”.

E eu me esforçava, tentando de forma sutil fazer com que ele me notasse, e não apenas o meu-assunto-interessante. Queria fazer o tipo sensual, fingindo naturalidade, mostrando a ele que não somente as esqueléticas dos outdoors podem ser charmosas.

Mas isso me pareceu ridículo, seria como me despir e gritar: “Olha pra mim!”, e fazer poses dignas da Playboy. Seria o meu nu rastejante, humilhante, digo, nu artístico.

Daí eu preferi ser eu. Desencanada, moderninha e “até” feminista, eu. E ele me achou uma garota legal, mas não disse que sou bonita.

É claro que ele me olhou de cima a baixo, como os homens fazem com todas as mulheres, tipo analisando o terreno, vendo se era comigo que iria embora no fim da festa. Mas isso não foi uma demonstração de interesse por mim.

Acendia-se sim uma chama de esperança, mas se eu tivesse chorado, lágrimas a apagariam todas às vezes em que ele deixava de prestar atenção no que eu estava dizendo para olhar para as outras moças, que por sua vez também olhavam para ele. Acho que se perguntavam: “Por que ele está perdendo tempo com essa coisa?”.

E então, num golpe de coragem, peguei um bloco e uma caneta na bolsa, anotei meu telefone e disse: “Me liga”. E, diante de um olhar espantado dele, completei: “ É pra gente falar mais sobre quadrinhos, fiquei interessada na sua teoria sobre os X-Men”. Diante da argumentação, ele sorriu e disse ok.

E quando o anfitrião da festa anunciou a próxima banda, ele levantou e disse “ a gente se vê” e sumiu na multidão.

Não nos vimos. Depois de um tempo, me disseram que ele saiu com uma garota. E ele ainda não ligou. Nem pra falar de quadrinhos.

A única coisa que sobrou da festa foi aquela depressão que dá quando chega a ressaca. Só a ressaca passou.

11 comentários:

Carina Prates © disse...

Aos 16.

Lí Dias. disse...

Rs agora foi. rs

Então! menina você já escrevia assim aos 16? nos mostre maaais.

Paquerar é um saco! nós criamos um mundo paralelo onde criamos os problemas e quase nunca as soluções af af af
só conseguimos solucionar os segredos destes mundos quando descobrimos que quase sempre um sorriso basta.
Dificil é saber disso.


Lá vem ela,
Feliz, cantante e reluzente
Lá vem ela,
Sonhando com seu príncipe, de moto e guitarra
Lá vem ela
Merece amor, merece música, merece o céu...
Lá vem...

socorro! Ela merece tudo, Ela merece a vida o céu o amor, eu só tenho a poesia....


Lá foi ela,
sozinha, triste sem ritmo
Lá foi ela...

Carina Prates © disse...

Que bonito o que vc escreveu!!! É de sua autoria? Vai fazer um blog pra eu comentar tb!! hehe

Então, baby, comecei a escrever mesmo com 11 anos. Com 13, quando comecei a ler Baudelaire, passei a escrever poesias mais decentes, já escrevi muita coisa tosca na vida. kkkkk

Depois li Morangos Mofados, do Caio Fernando Abreu e me meti a escrever "contos".

Tive uma fase meio deprê no auge da adolecência em que eu escrevia muita coisa trevosa e anti-cristo, aff, foi tarde essa fase. Relendo depois, na fase mais wiccana e paz e amor, me assustei e joguei tudo fora, deu medo de mim mesma. hahaha

Lí Dias. disse...

Se vc ver as coisas que eu escrevia com 17 vc correria de mim. rs
A maioria eu joguei fora. até hoje odeio tudo o que escrevo.

Odeio ler [romance]mas amo escrever, isso é um problema.
Não sei escrever nada bonitinho e nada feliz, as vezes fico oras tentando escrever uma poesia de amor mas alguém sempr se mata. rs
Tudo que eu escrevo aqui é inspirado em você e no que você escreve.
Um dia eu transcrevo isso p/ o word e arrumo direitinho.

Lí Dias. disse...

*Claro qu eminha adolescencia e juventude gótica depressiva e de trevas tem muito a ver com a destruição dos meus escritos. rs

Carina Prates © disse...

hahaha, seu conceito de amor é pior que o meu!

Não gostar de ler romance é complicado pra quem gosta de escrever. No meu caso, se eu não tivesse esse hábito, estaria escrevendo as porcarias que eu escrevia até hoje.

Mesmo sem perceber, acabamos nos inspirando em algo que lemos, mesmo que não seja na narrativa, mas na composição, até mesmo em termos de vocabulário.

Eu costumava pensar que não me inspirava em nada do que eu lia mas, depois, fui perceber que evoluí bastante após ler Baudelaire pela 1º vez, foi como se tivesse aberto um "click" na minha cabeça.

Música também me influencia bastante, mas aí já é outra história. rs

Carina Prates © disse...

Obrigada por ser uma inspiração. Que emocionante!!!

Lí Dias. disse...

Odeio ler.
Não tenho paciencia e quase nunca eles dizem o que quero ler.
Gosto da Florbela e gosto do SAde.
Isso sim é romance. rs

Meu conceito de maor é completamente deturpado. Ainda doarei meu corpo para a medicina. rs


Mas entendo sim a influencia dos livros autores e tudo mais.
eu escrevo mal exatamente porque não leio.

Mas tenho preguiça.
Depois que eu publicar o primeiro livro e ninguém comprar talvez eu tome vergonha na cara. rs

Carina Prates © disse...

Quero publicar também, mas já desanimei com isso quanto à poesia, que não costuma render muitos lucros pras editoras (não quando se trata de poetas desconhecidos). Daí resolvi fazer o blog, não ganho $ mas pelo menos divulgo o que escrevo.
Pretendo escrever romances, já fiz alguns "esboços", mas preciso de tempo.

E quem disse que você escreve mal??

Lí Dias. disse...

Eu vou publicar, era p/ ter feito isso ano passado mas decidi esperar e escrever coisas melhores além de juntar $$$
Vou fazer pelo simples prazer de ver um livro bonitinho com meu nome nele.ou meus pseudonimos.


Obrigada por gostar do que escrevo. rs

Carina Prates © disse...

Se eu soubesse controlar meus gastos, já teria juntado $. Agora vai demorar, porque tô ganhando muito pouco. kkkkk

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